domingo, março 27, 2005

ANIMAL


de
Alexandre Machado
Parte 1 de 2
" O que poderia existir dentro de nós, senão nós mesmos? "

Provavelmente aquele escritor estava certo quando definia nós, os humanos, como prováveis animais, prontos a reagir de maneira selvagem aos nossos instintos. Até hoje, eu não sei o porquê, estes pensamentos me vêem à mente, especialmente ao entardecer. Talvez devia ser algum efeito colateral, causado pela dose maciça de drogas que eu era obrigado a tomar todas as noites e, em razão disto, eu nem sequer conseguia ir ao banheiro, deixando que, muitas vezes, a vontade de cumprir uma simples necessidade fisiológica fosse superada pelo desânimo e pela falta de controle de meu próprio corpo. Lentamente consegui abrir os olhos. A claridade da manhã, mesmo cinzenta, penetrou em minhas pálpebras. Não conseguia forças para reagir. Isto sempre aconteceu comigo enquanto estive internado naquele hospital. Por muito tempo, todas as manhãs foram iguais. Algumas vezes, podia sentir as moscas que acercavam-se de minha boca semi-aberta e adormecida ainda, pelo efeito dos remédios da noite anterior.
Meu Deus! Eu não conseguia, sequer, afastá-las. - pensei.
Vamos lá 22 ! - gritou o enfermeiro que vinha sempre acompanhado do segurança.
Hoje é o seu dia de sorte, maluco ! - completou às gargalhadas.
Juntei forças para cumprir as ordens, antes que me batessem como sempre e levantei-me da cama, afastando-me dela, deixando para trás o cheiro insuportável de minha falta de autocontrole da madrugada passada. Fui acompanhado e colocado para fora do portão do Centro Psiquiátrico Padre Nazareno com a mesma roupa que acordei. - Voa passarinho ! Voa 22 ! - continuou gritando ironicamente o enfermeiro amparado pelo sorriso desdentado do seu namorado gay enquanto se afastavam do portão. Sabia que estava livre. Olhei então para um lado, para o outro e, como não sabia para onde ir, segui então, a direção que o vento soprava naquela hora.
Depois de um longo tempo seguindo uma rotina entre o quarto e os banhos de sol, as seções de choque enquanto tomava meu banho, as medicações e os pesadelos estranhos e as horríveis lembranças, das quais, muito poucas fazem algum sentido e outras tantas que, provavelmente, eu nunca as compreenderei, agora me jogam na sociedade, sem ao menos saber se estava pronto para sobreviver a ela ou se ela me queria de volta ou, até mesmo, se eu queria voltar.
Enquanto caminhei, observei que as pessoas ao meu redor me fitavam com temor. Senti que mantinham-se à distância por medo. A minha caminhada foi então bruscamente interrompida pela chegada de dois PMs e um enfermeiro do centro psiquiátrico, que me agarraram pelos braços e me jogaram como um saco de lixo para dentro de uma kombi. Passados alguns minutos, lá estava eu, novamente, sendo jogado para fora do portão do hospital. Alguém havia esquecido de retirar a pulseira de identificação e me confundiram com um doente fugitivo.Retornei minha caminhada a lugar nenhum, me sentindo mais lúcido apesar da ansiedade e a secura na garganta. Sem direção, resolvi sentar-me no banco do ponto de ônibus quase em frente ao portão principal do Centro. Parece que estive ali por horas. Só me dei conta que já era tarde, porque a luz do dia passou a dar lugar as sombras mais escuras. A fome e a sede começaram a me incomodar também. Achei que estava na hora da medicação.
Será que eles me esqueceram? - pensei em voz alta, levado pelo aumento da ansiedade e da escassez de saliva em minha boca.
É melhor eu caminhar. - decidi.
Reiniciei novamente minha caminhada, só que desta vez deixei que o destino me levasse. As ruas já estavam completamente escuras, exceto por trechos onde alguns velhos postes de madeira ainda iluminavam o chão de terra, tentando fazer o trabalho de outros tantos que não funcionavam mais e que apenas serviam de diversão para as centenas de insetos que, freneticamente, se esvoaçavam entorno das lâmpadas gastas e quase sem força. Notei que, apesar de não ter noção de onde estava ou quanto eu havia caminhado, não me sentia cansado, ao contrário, estava mais disposto, alerta, mesmo com a fome me incomodando bastante.
Será que eles haviam me esquecido? - pensei novamente.
Continuei me embrenhando na mata até que, quando dei por mim, já estava em meio a parte mais densa da mata. Não havia luz. Não havia estrada. Eu não sabia como havia chegado ali. Foi então, que vi uma pequena luz, frenética, se aproximando lentamente. Era uma bicicleta. Eu sabia que era uma bicicleta, mas ainda assim, estava muito longe para pedir ajuda. Também, quem ajudaria alguém vestido como eu em meio há uma mata e hà esta hora da noite?Entendi que era melhor seguir em frente.Alguns minutos depois, comecei a sentir um aroma esquisito, não sabia identificá-lo, mas me pareceu familiar.Meu estômago ardeu, como se estivera sentindo cheiro de churrasco e minha boca, quase ao mesmo tempo, se enchei de saliva. Era uma sensação estranha. Eu não sabia o porquê, mas sabia que não era sede de água.
Meu Deus! Meus remédios! - disse.
Acho que eles não vêem mais! - pensei enquanto suspirei.

Algo foi mais forte do que eu. Da mesma forma que eu não tinha controle sobre as minhas necessidades fisiológicas lá no hospital durante as noites, também não encontrei forças para parar. Era instintivo.Alguns estranhos sons, pareciam ranger de dentes, furiosos e famintos, ecoaram em minha mente tão claramente que me assustaram. Tudo parecia que estava acontecendo muito perto dalí. Eu sabia que sim. Eu podia sentir, mas onde?!Fui me entranhando cada vez mais na mata densa, seguindo os sons que estavam cada vez mais nítidos. Qualquer pessoa estaria com medo, mas eu sentia aquele cheiro, agora muito forte e cada vez mais familiar. Eu senti uma necessidade incontrolável. Instintiva, sem dúvida.
Dai para frente, eu não me lembro de mais nada. Na memória somente flashes como àqueles que eu tinha nas noites lá do Centro Padre Nazareno. Olhos grandes e penetrantes. Dentes nervosos e lambuzados de sangue. Horríveis. Imagens que passavam rapidamente e eram difíceis de detalhar. Aqueles gritos fortes e valentes. O cheiro inconfundível de animal. O gosto perturbador de sangue e então, o silêncio.

Fim ?
Agradecimentos
ao
Professor Ivan Carlos