sexta-feira, abril 01, 2005

" EU PAGO A CONTA "
de Alexandre Machado
Marcos era tipo do cara que não podia reclamar da vida.Casado há 20 anos com Mara, mulher bonita, companheira, dois filhos 4 e 6 anos, uma sogra que nunca se meteu em sua vida e um sogro que era irmão e pai ao mesmo tempo ou seja, uma família de dar inveja a qualquer um. Uma casa de classe media alta com todo o conforto possível, dois carros seminovos na garagem, muitos amigos e um emprego tranquilo e garantido, pois Marcos sempre teve tino para os negócios.Todo fim de ano, Marcos adorava passar a noite da natal junto à família, como era nos tempos de seus avós. Neste, Marcos tentou trazer seus pais que moravam no Brasil, mas eles não queriam viajar nesta época. Marcos não conseguiu juntar toda a família, mas decidiu fazer um ceia de natal como se nunca havia visto em sua familia. Aquele ano teria sido um dos melhores de sua vida em todos os sentidos.Marcos era um homem alegre e de muitos amigos. Sempre levava todos osparentes e amigos que conseguia para comemorar alguma ocasião especial em um almoço ou jantar nos melhores restaurantes e sempre fez questão também, de sentar-se nas cabiceiras das longas mesas e deixar bem claro ao início de cada festa; " EU PAGO A CONTA!" .Fazia muito frio na noite de 24 de dezembro, mas a casa já estava quase pronta para o natal. Já haviam enfeites que enfatizavam o contorno da casa e as pequenas luzes que davam ao jardim, a idéia de um grande bolo de aniversário colorido.Mara estava radiante como sempre. Sempre foi uma mulher que esteve ao lado de Marcos e soube como criar seus filhos, Alya e Alessandro, duas crianças saudáveis e cheias de energia. Dona Mirtes e o senhor Affonso, eram os sogros que qualquer gostaria de ter tido. Mãezona e paizão, aquela dupla era muito engraçada. Apesar da riqueza, continuavam humildes e felizes. Sabiam curtir tudo que a vida lhes apresentavam, sem esquecer do passado de muita pobreza e luta contra muitas dificuldades para criar Mara.Marcos estava muito feliz. Sorria sozinho, apesar da saudade dos pais.Já eram quase meia noite. Todos estavam sentados para começar a cêia,exceto Marcos que tinha ido até a cozinha pegar o vinho na geladeira.O telefone toca.- " Deixa que eu atendo! " - diz Mara.- " Não se preocupe, meu bem! " - retruca Marcos que deixa a garrafa de vinho sobre a mesa e retorna para atender a ligação numa salinha reservada perto da porta de entrada da casa.- " Alô ! " - diz Marcos. Daí para frente, não se ouvia a voz de Marcos. Apenas alguém, do outro lado da linha, que parecia dizer coisas que o deixavam cada vez mais atordoado.Marcos caminha lentamente, ainda com o telefone ao ouvido, para a porta de entrada da casa, para pegar um envelope, como se fosse orientado paraisto.A voz ao telefone parece ter se despedido.Marcos põe o telefone de volta no gancho lentamente e, começa a abrir o envelope cuidadosamente, como que se não acreditasse no que haviaouvido do desconhecido.Nos olhos de Marcos além de apreensão, claramente tornavasse evidente as expressões de surpresa e tristeza. Os olhos já molhados, iniciavam asprimeiras lágrimas de decepção.Marcos deixa o envelope cair no chão, e algumas fotografias ficamespalhadas no assoalho brilhante de tábua corrida.Ele vagarozamente caminha para a sala onde todos o esperam na mesa.Marcas pára e diante da mesa, permanece segundos olhando fixo para algum lugar que não era, certamente, àquela sala.Estava estático e suando frio. Mara nota que algo não esta bem e pergunta o que houve, se esta tudo bem.Ele olha para sua esposa como que se não acreditasse no que estavaacontecendo...Olha para seus sogros que neste instante estão se beijando carinhosamente e para as crianças que brincam curtindo àquele momento de alegria..- " Não!" responde Marcos.- " Mas vai ficar." - complementou. Mara sente que algo não estava bem, mas entendeu que aquele não era omomento para conversarem sobre problemas. Todos estavam muito felizes.Marcos parece estar em outra dimensão e assisti à Mara dar início aojantar.Um lágrima e o seco na garganta. Um suspiro e uma pergunta em tom normal;- " Por que? " - pergunta Marcos baixando a cabeça.- " Por que o quê, querido? " - completa a pergunta Mara.O brilho reluzente das luzes de natal em uma faca que estava ao lado do grande pernil, é o estopim para o fim de tudo.Num impulso muito rápido Marcos toma a faca em sua mão e degola o seuAffonso, que ainda mantinha a boca aberta da última gargalhada.Ninguém ainda tinha se dado conta do que estava acontecendo e Marcos enfia a faca no pescoço da sogra que, neste momento parecia estar começando a entender a gravidade da situação, matando-a na hora.Mara, que estava cuidando dos pratos de Alya e Alessandro, se surpreende com as gotas de sangue que respingam nela e nas crianças ao mesmo tempo. Quando se dá conta do que poderia estar acontecendo, Marcos já estava bem perto das crianças e com gesto rápido e seguro, corta as crianças em duas partes.Agora só faltava Mara, que olhava para o marido totalmente paralizada.Chocada. Sem qualquer tipo de reação. Sem entender nada, porque,provavelmente, aquilo tudo não estava acontecendo.Os olhares se fixam. Enquanto Mara era uma vítima indefesa e paralizada, Marcos era um louco assassino sem limites, prestes a por fim ao pesadelo de natal.Em segundos, Mara retorna a consciência sobre a situação e, mesmo nãoacreditando em tudo aquilo, com a voz tremula pergunta; - " Por que meu amor? " E Marcos, com um golpe certeiro dá a resposta à Mara que tomba sua cabeça sobre o prato de comida. Alguns meses depois numa sala de condenação, diante de algumas testemunhas e preso à uma cadeira elétrica...- "O senhor tem alguma coisa a dizer antes de ser executada a sentença? " - pergunta o padre seguindo o ritual de praxê.- " Sim." - disse Marcos com um sorriso sínico e melancólico...- " EU PAGO A CONTA.!
Fim
Agradecimentos
ao
Professor Ivan Carlos