domingo, abril 03, 2005

SELVAGEM
de
Alexandre Machado
Parte 2 de 2

" A razão agora é apenas um pedaço de suas lembranças e só existe uma maneira de sobreviver"


As manhãs foram iguais por muito tempo, mas certamente, esta havia sido diferente.
Eu pude sentir. Dormi como uma pedra. Consegui manter o controle sobre meu corpo a noite toda. Parece que finalmente alguém da enfermaria fechou a janela do quarto. Como poderia descansar com aquela claridade nos olhos?
Lentamente fui despertando. Havia um silêncio. Tranquilidade. Paz. Acho que esta era a palavra certa.
Notei que estava deitado no chão, quando observei a linha de formigas que caminhavam perto de mim carregando algum inseto em pedaços.
Por alguns segundos fiquei imóvel, mas não era como das outras vezes. Eu me senti tão bem ali que poderia passar horas naquela mesma posição. Eu me senti em casa.

Casa?! – pensei.
Um flash veio como um raio em minha mente. Em segundos me veio a lembrança de quando brincava de forte Apache no chão daquele mesmo quarto. Eu sempre tive esta mania de brincar no chão observando meus brinquedos no mesmo nível, como se fosse do tamanho deles.
Assustado, levantei-me rapidamente e me joguei contra a parede mais próxima, deixando que o medo elevasse o meu batimento cardíaco até quase o nível da loucura.

Meu Deus! Não era possível! – pensei assutado.
Como vim parar aqui?! – concluí respirando fundo.

Eu havia amanhecido em meu quarto, não o do hospital, mas o de minha casa no sítio.
Naquele instante fui invadido por inúmeros sentimentos e sensações diversas. Alegria e medo dividiam ao mesmo tempo a minha mente.
Alguns flashes de minha mãe na cozinha me chamando me levaram a correr pela casa em direção à cozinha. Não havia niguém lá. A emoção foi tão forte que não percebi durante o caminho, que a casa estava abandonada. Somente a poeira e o silêncio sepulcro ainda permaneciam.
Filho! Vem cá ver o jegue que eu comprei! – Ouvi nítidamente meu pai me chamado lá fora. Corri desesperadamente na esperança de que tudo aquilo fosse real, mas não havia niguém lá. Parece que já não varriam a frente da casa fazia um bom tempo.
Retornei para dentro da casa e tentei lembrar de algo que pudesse indicar a direção de onde estariam todos. Não consegui lembrar de mais nada. Durante a minha procura por algum sinal de vida, notei que as paredes da sala tinham marcas profundas, como as de um urso ou coisa parecida.
Mas urso aqui em Belém?! – pensei curioso.
Após tomar um banho, encontrei algumas roupas de meu pai. Ele deve ter saído as pressas e acabou esquecendo algumas peças.
Fui caminhar pelo sítio ainda tentando lembrar de algo que fizesse sentido. Após alguns minutos, vi um pequena habitação há alguns metros dali.
A venda de Seu Martinho! – lembrei.
Corri como uma criança ao encontro de sua mãe após estar perdido e então parei bruscamente diante da porta. Entendi que era melhor não me identificar. Tanta coisa havia mudado.

*****
Aninha! – disse sem pensar.
Bom dia seu moço! – respondeu surpresa. O sinhô sabe o meu nome?! – completou.
Ah...sim! Um senhor na estrada me disse que você poderia me ajudar. – respondi.
Ara! Se eu pudé ajudar o sinhô! – disse Aninha ainda com a mesma ternura de quando éramos crianças.
Aninha foi a minha primeira namorada mas ela não me reconheceu.
Entendi que era melhor permanecer no anonimato e perguntei onde estava a família que morava no sítio ao lado.
Com atitude comum de quem não tem com quem conversar, Aninha se debruçou sobre o velho balcão de madeira e contou a versão que ela conheceu sobre os fatos. Enquanto ela me contava, tive a sensação de estar caindo num poço sem fundo. O meu coração batia tão forte que parecia querer explodir. Eu estava perdendo o controle. Subtamente saí correndo pela estrada de terra. Não pude acreditar no que ela havia dito.
Contavam que todos da família haviam sidos assassinados pelo filho mais novo enquanto este esteve dominado pela loucura. Todos estavam mortos exceto o tal rapaz que havia sido descoberto em seu quarto quase um mês após a tragédia e nunca mais se ouviu falar dele. Os vizinhos sentiram falta da família e foram até o sítio. O cheiro forte dos corpos, ou melhor, do que restou deles na sala da casa, em decomposição chamou a atenção de todos.

*****
Corrir desesperadamente. Como se o mundo houvesse caído sobre minha cabeça e a morte sido cravada em meu peito.
Eu corri o mais rápido que pude e, não sabia o porquê, sempre em direção da mata, como se buscasse consolo em alguma coisa, em algum lugar.
A raiva e sofrimento aumentaram. A cada passo desesperado, a minha memória racional, lentamente, foi desaparecendo. Eu já não tinha mais o controle total sobre mim mesmo.
Cheguei então ao ponto mais alto que havia na região. Quando começei a chorar estava muito confuso. Tudo era um emaranhado de lembranças sem sentido. Minha vontade foi de que tudo acabasse naquele instante.
O cheiro de sangue me chamou a atenção e então, começei a olhar ao meu redor. Eu estava em um covil de animais. Esqueletos e restos podres de carne humana e animal e sangue, muito sangue por todos os lados. Havia também muitos roupões comuns em hospitais.
Notei que também estava todo sujo e pensei que teria sido eu, o causador daquela cena horrenda, apesar de não entender ou lembrar de nada.

MEU DEUS! – Gritei desesperado.
O QUE ESTA ACONTECENDO COMIGO, SENHOR? – Continuei gritando mais alto ainda.

Alguns minutos depois, ouvi ruídos estranhos que vinham do mato e procurei me esconder.
Quatro seres, parecidos com cães enormes, lobos talvez, se aproximaram arrastando um corpo que parecia ser de um homem. Por alguns instantes, me veio a lembrança daquela bicicleta de ontem à noite.
De forma impressionante, eles começaram a dilacerar o corpo para saciar a fome.
Mas um deles percebe, pelo faro, que existia alguém estranho por perto e começaram a caminhar em minha direção.
Eu percebi que precisava sair dalí o mais rápido que pudesse. Corri então ladeira abaixo, mas eles foram mais rápidos e me dominaram. Foi engraçado, pois eu não senti raiva naquele momento. Eu me senti estranho, curioso e confuso, mas não senti medo.
Então aproximou-se um que parecia ser o líder. Respirava forte ainda me recuperando da corrida, quando ele chegou bem perto de meu rosto.
Trocamos olhares. Tive a impressão de o conhecer de algum lugar ou situação. Eu sempre tive este tipo de caduquisse. Associar o rosto de pessoas conhecidas ao de animais.

De repente, vieram flashes em minha mente; Uma sala de hospital. A minha mãe. Uma enfermeira. Alguma situação de preocupação. O clima pesado entre doutor Barcelos e meus pais.
Em outro flash muito rápido, o doutor me examinando no leito da enfermaria.

Esta tudo bem com ele, por enquanto! - disse ele à minha mãe.
Mas precisa de observação e alguns testes complementares.- completou o doutor.

Que loucura! – pensei enquanto tentava retornar a realidade.

Ele percebeu que eu parecia o ter reconhecido.
Enquanto ele se afastava após dar algum tipo de ordem aos outros, mais lembranças emergiam de minha memória e do que restavam de minha racionalidade.
Mas uma lembrança foi decisiva para que algumas coisas começassem a fazer sentido.
Na noite anterior à tragédia, nós recebemos a visita do doutor Barcelos e três de seus assistentes em nossa casa. Eu me lembro que eles discutiram porque o doutor queira me levar para fazer alguns testes alegando que seria mais seguro para todos, mas meus pais não o deixaram. A discussão ficou cada vez mais forte e só me recordo de barulhos horríveis , gritos de desesperos, a casa parecia que viria abaixo e então, o silêncio. Aquilo tudo me deixou muito estressado, pois preso no quarto não pude ver o que estava acontecendo na sala naquele momento.
Daí para frente não me lembrei de mais nada.

*****

Enquanto eles me espancavam e me jogavam de encontro as árvores, os flashes eram cada vez mais claros e reveladores.

Foram eles! O doutor! Os enfermeiros! – Tudo começou a fazer sentido.
Eles mataram toda a minha família. – Pensei surpreso pela revelação.

Transformados em animais ferozes, selvagemente chaçinaram minha família e me deixaram em no quarto, vivo, para que eu fosse incriminado pelas mortes.

Meu Deus! Que loucura! – pensava enquanto a raiva se transformava em ódio dentro de mim.
Foi então que dei um basta ao espancamento.
Lutamos violentamente por bastante tempo. Parecia que não haveria um lado vencedor. Todos estavamos muito machucados, porém, eu era visivelmente o que mais prejudicado. Provavelmente não aguentaria por muito tempo. Continuei lutando, utilizando não só a força física, mas também o sentimento de vingança.
Entendi naquele instante, que precisava por um fim em tudo aquilo antes que fosse tarde demais.
Tive então uma idéia, talvez uma das últimas de minha razão. Corri como se quizesse fugir, para bem perto do penhasco, dando a impressão de que estava sem saída. Eles vieram e me cercaram. Eu senti que só haveria uma chance de terminar com todo aquele sofrimento. Simulei uma tentativa de fuga e eles me dominaram. O doutor, ironicamente, aproximou-se de mim e parecia expressar um sorriso debochado. Ele não precisou falar pois os sons que emanavam da enorme boca com hálito de morte me diziam, claramente, que eu estava condenado a morte naquele instante.
Numa última tentativa, deixei que ele chegasse o mais perto possível e então, estiquei-me o máximo que pude e avançei sobre ele cravando meus dentes caninos com as forças que me restaram, em sua garganta. Surpreso pelo ataque, o doutor tentou se livrar mas não havia como e com um forte puxão para trás, nos lançamos penhasco abaixo numa viagem que pareceu uma eternidade.

****

Segundo o pessoal da cidade, a lenda conta que lá encima, no covil onde aconteceu o fim de tudo, nada mais vive. Não há fauna ou flora, somente almas e gritos de horror durante as noites de lua cheia.
Eu estive novamente no penhasco. Hoje lá existem flores e tudo é verde. Animais silvestres convivem entre si sem a pertubação do homem e de seus conceitos de racionalidade e civilidade.
Quanto à eles; encontraram o corpo do doutor com um pedaço de tronco enfiado no peito e os demais chegaram aos pedaços ao chão por razão das pedras que encontraram pelo caminho durante a queda.
Eu fui salvo por galhos de árvores e folhagens que amorteceram a minha queda, pouco antes de chocar-me contra o solo e fui me recuperando com o tempo.
Lentamente fui retornei para dentro da mata onde nós, os animais, somos apenas feras de instintos selvagens tentando sobreviver num mundo totalmente animal e de onde nunca mais saí.

Fim.